Inovação não é para amadores, por Daniel Gentil

Cases 05 de maio de 2020

Esse texto é para as futuras gerações de famílias empresárias que desejam trabalhar com inovação.

Segundo o professor John A. Davis, empresas familiares performam melhor em momentos de estabilidade do que em momentos de incerteza. Entretanto, a revolução tecnológica é uma janela de oportunidade para as futuras gerações. Como nativos digitais, os jovens estão em uma posição favorável para interagir e liderar essas mudanças. Além disso, carregam dentro de si os valores e o legado de suas famílias, ativos fundamentais para realizar as transformações necessárias em seus negócios.

Depois de 3 anos trabalhando com iniciativas de inovação no ecossistema brasileiro, alguns investimentos e uma startup fundada, decidi compartilhar meus aprendizados. Algumas das sugestões que serão apresentadas eu consegui colocar em prática, já outras eu percebi que poderiam ter tido um impacto significativo na minha curva de aprendizado. Independente de estar dentro ou fora da empresa familiar, aqui estão algumas sugestões de como se profissionalizar em inovação e tecnologia.

Para estruturar esse conhecimento, dividi em 5 principais temas. O primeiro, segundo e terceiro são sobre a necessidade de execução e experimentação. A importância de conhecer profundamente o negócio da família, trabalhar em uma startup e realizar seus primeiros investimentos. Depois a necessidade de buscar conhecimento didático e mentores experientes. A seguir, tento aprofundar cada um dos temas de forma mais detalhada.

1) imersão no negócio familiar

O objetivo dessa etapa é mapear quais oportunidades estão nas lateralidades desse negócio. Para isso, é extremamente necessário conhecer os clientes internos (funcionários, sócios e fornecedores) e externos (os que consomem os produtos e serviços finais) dessa organização.

Existem várias maneiras de realizar esse trabalho, dependendo do tamanho e da governança da organização pode mudar a liberdade e facilidade de acesso ao negócio. Em alguns casos, contar com o apoio de uma consultoria de estratégia ou service design pode dar mais robustez ao trabalho. Entretanto, para entender de fato a empresa tanto o CEO como o porteiro devem ser analisados. A barriga no balcão, uma rotação de trabalho nos departamentos e entrevistas com executivos chaves são essenciais. Mas o importante é que no final seja produzido um relatório, um material que possa ser compartilhado e acessado futuramente, apresentando detalhadamente como funciona a sua empresa e quais são os desafios/oportunidades.

Com essa visão holística sobre o negócio, é necessário estudar o setor em que a empresa está inserida: números, crescimento, tendências e a compreensão de toda cadeia. Essa análise irá esclarecer a relevância do setor, consequentemente, a magnitude que uma possível inovação pode ter e irá evidenciar quais são os gargalos que outras empresas similares também apresentam. Importante ter em mente que quando se trata de inovação, tamanho de mercado importa.

2) Trabalhar em uma startup

Para entender melhor sobre inovação, startup e empresas disruptivas o melhor caminho é vivenciar na prática o dia a dia desses negócios. A maneira mais barata e fácil de fazer isso é trabalhando pra uma delas.

Trabalhar de 6 a 12 meses em uma startup na etapa de produto ou de vendas é fundamental para construir uma percepção do que é uma startup. São nessas etapas que investimentos anjo e seed são realizados. Participar dessas dores e desafios, irá desmistificar muita coisa sobre o que é criar um negócio inovador e de tecnologia.

O objetivo é sair da teoria, do mundo das ideias e sujar as mãos de verdade e aprender. Mas para aprender, é preciso estar perto dos melhores. Ou seja, deve-se buscar startups que os fundadores são inspiradores e possuem históricos profissionais excepcionais. O salário será muito baixo, já a intensidade e cobrança serão bem altas. Por isso, o foco é em tirar o máximo de aprendizado desse período, será a recompensa mais valiosa.

3) Realizar os primeiros investimentos.

Com as etapas anteriores cumpridas, será conquistada uma posição privilegiada no ecossistema de inovação. Ficando claro quais são as melhores startups do setor, os melhores fundos de venture capital e a iniciativas relevantes. Quem realiza um bom trabalho e quem tem grande potencial de crescimento. Tanto empreendedores quanto investidores. Com o conhecimento profundo sobre o negócio familiar, deve-se usar esse conhecimento para investir em iniciativas que estão alinhadas com as tendências e oportunidades do mesmo setor.

Essa é uma oportunidade incrível de sentar no outro lado da cadeira, no lado de quem avalia negócios e correr risco junto com empreendedores ousados. Os valores dos aportes não precisam, nem devem, ser altos, a única recomendação é que tenha quantidade no portfólio. Acredito que entre 3–5 investimentos anjo seja uma boa quantia.

Uma dica extremamente útil, investir em um fundo de venture capital irá facilitar todo o processo de busca e seleção de startups qualificadas. Existe uma oportunidade incrível de aprender como realizar esse trabalho acompanhando o fundo, assim como a possibilidade de co-investir nesses negócios já analisados por uma equipe altamente qualificada. A Astella é um dos fundos de venture capital que gosta de trabalhar lado a lado com seus cotistas, tenho aprendido muito com eles. PS: os fundos analisam 2.000 negócios e investem em 2 por safra, se você estiver com um fundo pode investir apenas naquelas que passaram por esse processo seletivo. Suas chances de acertar aumentam.

4) Estudar TUDO sobre inovação.

Apesar de ser uma área recente, já existe uma literatura validada sobre o tema. Existem vários livros, artigos, eventos, podcasts que são essenciais. O ecossistema de inovação é pequeno, se conectar com ele e ter conhecimento suficiente para nutrir essas conexões é fundamental. Cuidado para não dedicar mais tempo para network do que para execução, ao longo da jornada ficará mais fácil filtrar o que vale a pena.

Se possível, é extremamente recomendável visitar outros ecossistemas de inovação como Vale do Silício, Israel, China e etc. Isso irá aumentar a compreensão desse universo, trazendo outras óticas para o seu dia a dia. O Brasil é um dos maiores mercados para negócios digitais do mundo e já existem startups brasileiras internacionalizando seus negócios. Esse é o momento mais adequado pra pensar inovação com uma mentalidade global, mesmo começando no Brasil. Existem empresas que fazem esse tipo de viagem, fui para o Vale e Israel com o FBN (“Family Business Network”) e foi uma experiência transformadora. Esqueça o turismo nessas viagens e tire o máximo de proveito.

5) A importância dos mentores

Por último, é imprescindível ter mentores. Essas pessoas já passaram por desafios semelhantes e podem acelerar o desenvolvimento durante a jornada. É importante que eles sejam empreendedores, investidores, consultores ou executivos que lideram iniciativas de inovação. Esses agentes do ecossistema possuem uma experiência valiosíssima que pode e deve ser compartilhada, geralmente fazem isso com prazer. Uma das maiores fontes de conhecimento serão às interações com os mentores, esses conselhos são customizados e adaptados à situação específica em questão. Em alguns casos, o conselheiro pode até trabalhar na resolução do desafio apresentado.

Uma dica importante para essa relação, mesmo que não tenha resultados positivos para compartilhar é importante mostrar empenho, dedicação e seriedade. Os melhores mentores são pessoas com agenda totalmente preenchida, eles precisam perceber que a hora deles está sendo bem investida.

Conclusão

Essas experiências vão esclarecer e evidenciar quais caminhos fazem sentido para cada jovem. Seja como investidores, seja como empreendedores, seja como transformadores digitais o importante é entender qual formato causará o maior impacto e trará maior realização profissional. Esse conjunto de experiência, fatalmente, irá ajudar nessa decisão. Vale acrescentar que quanto mais experiência e conhecimento, menos doloroso e custoso será o caminho.

Entretanto, os frutos desse trabalho não serão colhidos no curto prazo. Precisa ter paciência e flexibilidade. O indicador chave é medido pela quantidade de aprendizado acumulado, buscar ser um profissional cada dia melhor é mais importante do que um determinado resultado.

 


Link oficial: https://medium.com/@danielgentilfernandes/inova%C3%A7%C3%A3o-n%C3%A3o-%C3%A9-para-amadores-df624d535530