O paradoxo da passagem geracional: a tradição e inovação como o exercício da traição Virtuosa na Empresa Familiar

O paradoxo da passagem geracional: a tradição e inovação como o exercício da traição Virtuosa na Empresa Familiar

Por Héctor Rafael Lisondo e Valéria Lisondo

“Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência significa respeito. Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade”.

(Nilton Bonder “A Alma Imoral”)

Muitas são as maneiras de definir uma Empresa Familiar. Uma delas seria afirmar que o controle da companhia está concentrado nas mãos de uma família. Outra, de que organizações desse tipo são caracterizadas por três dimensões que se articulam e se sobrepõem: a família, a propriedade e a gestão (modelo clássico dos 3 Círculos, preconizado pelo Prof. John Davis).  Outros grifam que uma Empresa Familiar cabe ser denominada enquanto tal quando perdura no decorrer do tempo, isso é, não finda na geração que a fundou. Todas são definições válidas. Teremos de fazer recortes. A última definição é a que nos faz pensar no tempo que passa (ou que não passa) na organização familiar.  E isso tem tudo a ver com o tema em questão: a Traição Virtuosa na Empresa Familiar [1].
 
Pode soar como um paradoxo. Afinal, a noção de traição não estaria relacionada a violações morais, corrupção, atos sinistros dirigidos a vantagens pessoais que lesariam a empresa e demais grupos nela envolvidos?  Não necessariamente. Evidentemente que tais traições destrutivas existem. Mas falaremos de outra natureza de traição: aquela dirigida a uma finalidade construtiva aliada ao propósito de fortalecer a empresa. Zelar pela sua visão de futuro. Essa seria a traição virtuosa. Essa é especialmente relevante no contexto dos distintos personagens e gerações de uma organização familiar. Essa é parte inerente dos fenômenos de sucessão.
 
Ora, então uma sucessão envolve necessariamente a traição virtuosa? Cremos que sim.  Goethe postulava: “aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”. Trata-se de uma conquista ser a geração sucessória. Escolher qual o caminho a ser traçado dentro da companhia familiar (ou não). Imprimir um estilo autoral naquilo que se escolhe – que é singular. E difere do que estava dado, estabelecido, do status quo até então vigente. É nesse sentido que a traição se dá. Convém associar a traição virtuosa com uma postura de maturidade. E isso é decisivo. Porque é nefasto o cenário no qual falta maturidade, no qual a experiência, conhecimentos e boas práticas existentes na organização são negligenciados e/ou negados. Não é disso que se trata a Traição Virtuosa como a descrevemos.
 
Falemos um pouco da figura a ser sucedida. No Brasil ainda são raras as organizações familiares cujo comando se encontra nas mãos da 3ª geração.  A taxa de mortalidade das empresas familiares ainda é bastante expressiva. 

Segundo uma matéria publicada no Jornal da USP de Ribeirão Preto [2], no Brasil, 90% dos empreendimentos correspondem a Empresas familiares, dos quais 70% encerram suas atividades após a morte do fundador. Isso quer dizer que pensar na geração a ser sucedida em uma Empresa Familiar no Brasil significa pensar em seu(s) fundador(es) na maior parte das vezes. E o fundador de uma empresa tem uma conotação mítica. A figura da empresa e a figura do fundador não raramente passam a ser assimilados como a mesma coisa. Uma entidade única.

A ambivalência também está em jogo. O fundador (ou a geração a ser sucedida) anseia muito para que a “passagem de bastão” possa acontecer, ao mesmo tempo em que sofre e resiste com esse processo. É comum que a “passagem de bastão” desejada seja uma ficção ilusória: a ideia de que outros estarão no comando pensando, agindo e reproduzindo fielmente o que os fundadores pensam, agem e são. E isso é impossível. E mesmo que não o fosse, seria conveniente?

A reprodução fiel e irrestrita de um modelo não poderia resultar em incapacidade de inovar, descompasso com um ambiente de novas exigências, modelos mentais e oportunidades? A beleza da sucessão e da continuidade da Empresa Familiar talvez seja esse manejo de paradoxos: a traição virtuosa; a inovação acomodada com a tradição; a lógica da meritocracia do mercado acompanhada com a lógica afetiva da família.

Amós Oz, escritor israelense, ao ser questionado sobre a tradução de suas obras comentou que pedia aos seus tradutores que o traíssem para que pudessem ser fiéis. A traição virtuosa é de extrema fidelidade com a obra da empresa. Acontece que criar a linguagem própria requer contestar a vigente. E tal arranjo integrativo das pontes construtivas entre o passado e o presente não é simples.

Por outro lado, não investir nessa aposta também cobra seu preço. A luz do fósforo requer o
atrito do movimento. Uma sucessão saudável não teme o deslocamento das placas tectônicas em jogo em toda passagem geracional. Pelo contrário: assume que o dínamo para manter o legado vivo é a abertura corajosa para a fricção de diferentes perspectivas.

Referências

[1] – A noção de Traição Virtuosa é inspirada no aporte do Prof. John Krantz descrita no artigo: “ Leadership, betrayal and adaptation” – Leadership, betrayal and adaptation – James Krantz, 2006

[2] – PETRONI, Maju. Empresas familiares representam 90% dos empreendimentos no Brasil. Jornal da USP, São Paulo, 18 out. 2018. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/atualidades-em-dia-com-o-direito-boletim-18-10-empresas-familiares-representam-90-dos-empreendimentos-no-brasil/

Autores:

Héctor Rafael Lisondo

Héctor Rafael Lisondo é autor do livro “Mudança sem Catástrofe ou Catástrofe sem Mudanças” e coautor das obras “Inovação Organizacional e Tecnológica”, “Empresas Familiares – Uma Visão Interdisciplinar” (FGV Law) e “Empresas Familiares e Famílias Empresárias – Governança e Planejamento Jurídico e Sucessório” (FGV Law).

É Doutor em Engenharia de Produção pela USP, Mestre em Qualidade pela UNICAMP, Psicólogo pela USF e Engenheiro pela UBA. Participa do programa “Leading the Family Business” (IMD – Lausanne) e possui experiências em Group Relations Conference – Tavistock – Leicester.

Valéria Lisondo

Valéria Lisondo é Psicóloga pela PUC-SP, com MBA em Administração de Empresas pela FGV-SP (CEAG) e ESADE Business School. Participa do programa “Leading the Family Business” (IMD – Lausanne) e possui experiências de Group Relations Conference – Tavistock.

Coautora dos livros “Empresas Familiares – Uma Visão Interdisciplinar” (FGV – Law) e “Empresas Familiares e Famílias Empresárias – Governança e Planejamento Jurídico e Sucessório” (FGV – Law).

É sócia do Instituto Lisondo desde 2007, atuando como consultora e responsável pela área de Pesquisa e Desenvolvimento da consultoria. É autora da pesquisa “A Continuidade das Empresas Familiares: Governança, Sucessão e Desafios” (FGV – 2012).

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