Liderança, motivação e resiliência estratégica da 2ª geração na Marcopolo

Liderança, motivação e resiliência estratégica da 2ª geração na Marcopolo

Leonardo Wengrover

A filosofia de liderança de James Bellini é fundamentada na crença de que o sucesso de uma empresa transcende a simples alocação de talentos. “Não basta ter as pessoas certas nos lugares certos; é imperativo que essas pessoas estejam altamente, obsessivamente motivadas”, afirmou ele, durante o painel “Estratégia de propriedade: a fundação do legado e da responsabilidade” – apresentado no 19º Encontro Nacional de Famílias Empresárias, realizado pela FBN Brasil, nos dias 26 e 27 de maio. Para James, o principal papel de um líder ou controlador, especialmente em uma empresa familiar, é catalisar e manter essa motivação.

James argumenta que a realidade de uma organização é moldada pela consciência e pelo pensamento coletivo de seus colaboradores. Citando princípios que ele associa à física quântica, ele afirma que a mentalidade positiva e a crença compartilhada no sucesso futuro da empresa são as forças que efetivamente criam essa realidade.

“Não basta ter as pessoas certas nos lugares certos; é imperativo que essas pessoas estejam altamente, obsessivamente motivadas.”

A motivação constante e o acompanhamento próximo das equipes são, portanto, essenciais. Uma cultura onde os funcionários se sentem engajados e ansiosos para contribuir gera uma empresa vencedora, enquanto a apatia leva à estagnação. O legado de seu pai, resumido na frase “o mais importante são as pessoas”, reforça essa visão centrada no capital humano como pilar para a perenidade do negócio.

Trajetória profissional e retorno à Marcopolo

A jornada de James começou como representante da Marcopolo na Argentina, durante um período em que o mercado local era protecionista e fechado. Após quatro anos, em 1996, ele retornou ao Brasil para assumir a área comercial de mercado externo da empresa, onde permaneceu por uma década. Em 2006, decidiu afastar-se para se dedicar a projetos pessoais, incluindo a realização do sonho de velejar, uma viagem que durou dois anos e meio, de 2014 ao final de 2016.

Seu retorno à Marcopolo ocorreu em junho de 2017, após quase onze anos afastado da operação diária. No ano seguinte, passou a integrar o Conselho de Administração. Porém, em 2019, devido à saída inesperada do então CEO e à ausência de um sucessor preparado internamente, James voltou à gestão, assumindo a posição de CEO de forma interina. O plano inicial era preparar um executivo da casa para a função, reforçando a cultura de valorização dos talentos internos e a possibilidade de crescimento na carreira. Contudo, a chegada da pandemia alterou drasticamente esse planejamento.

A ascensão de James ao cargo de CEO interino coincidiu com o início da pandemia de Covid-19, mergulhando a Marcopolo numa “tempestade perfeita”. O mercado mais rentável da empresa, o de ônibus rodoviários de média e longa distância, praticamente desapareceu, pois os clientes paralisaram cerca de 85% de suas frotas, cessando a compra de novos veículos. O mundo pedia isolamento e a Marcopolo vendia espaços confinados para transportar pessoas. A situação, já delicada, foi agravada por uma hiperinflação de insumos essenciais: o aço subiu 140%, enquanto outros materiais como alumínio e vidro também sofreram aumentos expressivos.

Diante de um cenário de queda drástica na demanda e aumento exorbitante dos custos, a empresa se viu forçada a considerar repasses de preços da ordem de 50% a 60% para manter uma margem mínima, uma medida extremamente difícil em um mercado paralisado.

Percebendo a complexidade do momento, o conselho de administração decidiu manter James na posição de CEO, confiando em sua experiência e conhecimento sólido da empresa para atravessar a turbulência. O que era para ser uma gestão interina de um ano, iniciada em 2019, se estendeu por todo o período crítico da pandemia, finalizando em abril de 2023.

Para enfrentar a crise, James promoveu uma profunda transformação cultural, que considerou a maior oportunidade surgida da pandemia. O foco foi combater “vícios culturais”, principalmente o medo que impedia os colaboradores de reportarem problemas, fazendo com que apenas boas notícias chegassem à liderança. Ao instituir uma cultura de transparência, ele buscou gerar confiança e encorajar a responsabilidade. Para inspirar a equipe, criou o slogan “É fora da zona de conforto que a mágica acontece”.

Paralelamente, foram criados dois grupos de trabalho: um focado na sobrevivência imediata e outro encarregado de “desenhar a saída” da crise. Este segundo grupo gerou projetos inovadores, como o ônibus “Biosafe”, equipado com materiais antimicrobianos, sistema de sanitização por luz e uma nova configuração de assentos (três fileiras e dois corredores) para aumentar o distanciamento.

James enfatiza que o fator decisivo para o sucesso foi a motivação, trabalhando individualmente com os líderes para fazê-los acreditar que metas ambiciosas eram possíveis e, assim, inspirar os cerca de 10 mil funcionários em Caxias do Sul e 15 mil no mundo.

Decisões corajosas e a virada para resultados recordes

Durante a pandemia, a liderança da Marcopolo tomou decisões estratégicas cruciais que foram fundamentais para a recuperação da empresa. A mais difícil foi o fechamento de uma das quatro fábricas. A comunicação foi feita de forma tão transparente e humana que os gestores responsáveis foram aplaudidos pelos funcionários que seriam demitidos, que compreenderam a necessidade da medida.

Outras duas decisões corajosas definiram o futuro da companhia. A primeira foi continuar o investimento na “Geração 8”, a nova linha de ônibus, apostando que a novidade motivaria os clientes a renovar suas frotas no pós-crise. A segunda, ainda mais ousada, foi desenvolver um chassi de ônibus elétrico próprio.

“É fora da zona de conforto que a mágica acontece”.

Diante da morosidade das montadoras tradicionais, que priorizavam seus investimentos em diesel, a Marcopolo agiu para não ceder o mercado emergente aos concorrentes chineses. O lançamento do veículo foi um sucesso e freou a entrada dos concorrentes. Essas ações, combinadas com a transformação cultural, levaram a Marcopolo a resultados recordes: lucro de R$450 milhões em 2022, R$800 milhões em 2023 e uma projeção de R$1,2 bilhão para 2024, conforme apresentado durante o painel.

A estrutura de governança da Marcopolo é centralizada em James e seus dois irmãos, que juntos detêm 54% das ações com direito a voto. A comunicação entre eles é fluida, especialmente após as reuniões do conselho. Um dos irmãos, Mauro, que já participou do conselho, hoje atua no comitê de estratégia e inovação e preside o conselho do Banco Moneo. O outro irmão, Paulinho, atua na construção civil e tem menor envolvimento na gestão.

A sucessão para a quarta geração já está delineada, principalmente através da filha e dos dois netos de James. Seus sobrinhos ainda são jovens, e uma sobrinha seguiu carreira em medicina.

Assim, a família Bellini espera seguir cada vez mais forte ancorada no valor fundamental deixado pelo fundador, o Sr. Paulo Bellini: “o mais importante são as pessoas”. A cultura da organização é um legado que James considera um privilégio carregar e que orienta as decisões da Marcopolo.

A trajetória recente da Marcopolo ilustra como liderança, cultura organizacional e visão de longo prazo podem se tornar fatores decisivos em períodos de grande incerteza. Para James Bellini, a capacidade de enfrentar crises sem perder de vista os valores construídos ao longo das gerações continua sendo um dos principais pilares para a perpetuação do legado da família e o crescimento sustentável da companhia.

Sobre o autor:

Leonardo Wengrover

Leonardo Wengrover é sócio-fundador e CEO da W Advisors Family Office, fundada em 2005. Tem frequentado conferências nacionais e internacionais de gestão do Patrimônio Familiar como palestrante, moderador e chairman. É conselheiro de Administração na FBN Brasil, e em outras empresas familiares e em entidades sociais. Leonardo é Gestor Financeiro de Valores Mobiliários pela CVM, é graduado em Engenharia Civil e especializado em Economia e Finanças pela PUCRS e pela Wharton School.

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