Governança familiar é diferente de relação familiar
Escrito por Bernadette Coser de Orem (Grupo Coimex)
Minha família começou a conversar sobre governança familiar na década de 1980. Meu pai, Otacilio Coser, fundador do Grupo Coimex, logo compreendeu que a preservação do seu legado dependia da articulação, entendimento, desenvolvimento profissional e societário dos seis filhos. Nessa época, ainda nem se usava o termo “governança”. A tônica era “profissionalização” da família empresária.
Iniciamos nosso trabalho de “profissionalização” com muitas conversas conduzidas pelo nosso querido Renato Bernhoeft. Lembro bem quando, por diversas reuniões, tratamos de elaborar um esboço de acordo de acionistas que, até ser formalizado muitos anos depois, ficou valendo como acordo tácito e respeitado por todos. Da mesma forma, fomos criando instâncias de processos decisórios, gestão de crises familiares, espaços de interação que organizaram um “modus operandi” próprio, mas que funcionou durante muitos longos anos, sempre se ajustando conforme a necessidade. Privilegiamos o consenso pelo bem das empresas e da família, mantendo uma relação familiar próxima.
Hoje, com a terceira geração já entrando na gestão dos negócios, nossa governança tornou-se mais estruturada, seguindo o exemplo de outras famílias empresárias. Mas também pela necessidade que veio do aumento de componentes: foram chegando os cônjuges da terceira geração, maior diversidade de demandas e compreensão do papel de cada um no contexto familiar. Todos conhecem muito bem os “famosos” três círculos que definem os âmbitos da família, da sociedade e do negócio. Hoje os sucessores da terceira geração já compreendem com clareza a diferença entre ser sócio e gestor do negócio, identificam seus papéis, assim como o tipo de sócio que são ou serão.
Aprendemos e reconhecemos logo a importância e benefícios da governança na família empresária, seja para o encaminhamento de questões sucessórias, desenvolvimento de convergências, valores comuns ou visão de futuro. Do ponto de vista da empresa, nossa percepção é de que a organização da governança familiar frequentemente é associada a uma melhor perspectiva de estabilidade societária e instrumento para organizar o processo de tomada de decisões, base para facilitar a atração de talentos executivos e implementação de gestão de risco e estratégias de negócios claras. Portanto, o benefício objetivamente alcança também os negócios que, por sua vez, não prescindem de sua própria estrutura de governança, alinhada com a família.
Tudo pode parecer muito bem organizado e estruturado. O Conselho de Familia foi instalado, temos Assembleia de Família Anual, jantar de encerramento do ano reunindo a família, membros do Conselho de Administração e principais executivos. A governança, tanto da família quanto da empresa, é reconhecida como um ativo que deve ser valorizado constantemente.
Será o suficiente? É bastante, mas não acredito que qualquer dessas iniciativas possa ser sustentada sem um ambiente favorável para a interação e promoção da responsabilidade de cada um como sócio. Da mesma forma quando iniciamos em nossa família os primeiros passos na direção da governança familiar, é preciso compreender como nos fazemos unidos – mais do que o que nos faz unidos.
A governança é o meio, mas não acredito que ela, por si só, gere uma real conexão produtiva entre os membros da família. Assim, partilho com vocês algumas atitudes que, na nossa experiência, são fundamentais para o desenvolvimento de nossa união:
Compreensão compartilhada: nada mais rico para estabelecer premissas de comunicação do que uma linguagem comum, construída coletivamente. Falamos dos diferentes papéis da família empresária e todos sabem o que significa. Falamos de temas que são da instância da família ou da governança empresarial, e todos respeitam. Os representantes de cada núcleo familiar são estimulados a compartilhar os acontecimentos e principais decisões com sua própria família, de forma que o desenvolvimento da compreensão de cada assunto estratégico possa ser efetivamente coletivo;
Representação e legitimidade: há consenso de que a comunicação assertiva e empática deve ser promovida. Somos de origem italiana, falamos muito e quase sempre com veemência. Mas trabalhamos nossa habilidade de comunicação com determinação. Esse foi o tema das duas últimas Assembleias de Família e termos como “embrulhar para presente” uma ideia ou sugestão polêmica passaram a fazer parte do nosso vocabulário. Disponibilidade para a escuta ativa é o que tem tornado a representação familiar cada vez mais legítima;
Alinhamento para convergência: é preciso coragem, mas acima de tudo não pode haver dúvida de que a intenção é buscar o melhor para todos – nem do outro nem de si mesmo. Ou seja, é mais produtivo dar um voto de confiança antes que se presuma que há intenções nocivas ocultas. Assim fica mais fácil ouvir, compreender e tratar as diferenças. Nem sempre há convergências ao final, mas a abertura para tratar as diferenças pode ajudar a prevenir conflitos maiores;
Confiança: Confiança é uma atitude. Sem confiança não é possível que um sistema de governança funcione. É preciso confiar que o combinado vai ser cumprido, que todos estão expressando suas opiniões com franqueza, que há alinhamento suficiente. Ao contrário do que alguns falam, penso que confiança pode ter muitas nuances e é um processo de contínua conquista, construído com transparência e respeito. Por isso, é preciso praticar sempre para que evolua. Quanto mais transparência e respeito houver num grupo, mais confiança será praticada.
Não somos uma família empresária perfeita. Entre nós há diferenças, alguns podem esquecer os “combinados”, eventualmente temos dissidências. Mas o compromisso da maioria com as atitudes listadas é inequívoco. De alguma forma, aprendemos que a governança familiar nada significa se não investimos em nossa relação familiar.
Autora:

Bernadette Barbieri Coser de Orem
Acionista e membro do Conselho de Administração da Coimexpar – holding do Grupo Coimex. Formada em Comunicação Social pela PUC-RJ, Bernadette é presidente do Conselho Curador da Fundação Otacilio Coser – FOCO, fundadora da Junior Achievement do ES e conselheira do GIFE-Grupo de Institutos, Fundações e Empresas por 3 mandatos.
Em 2012 publicou o romance “O Livro de Joanna”, que conta a história de uma família de origem italiana instalada no interior de São Paulo.