Novos negócios como geração de valor

Novos negócios como geração de valor

Como o ecossistema de uma empresa familiar consolidada pode ser uma oportunidade de lançamento para novos negócios, com mais velocidade e menos risco do que uma iniciativa que começa do zero

Escrito por Victor Gomides

Existe uma percepção comum de que inovação e novos negócios são território somente de startups – iniciativas que nascem com total liberdade para testar, errar e recomeçar. Essa narrativa, embora válida em muitos contextos, ignora uma vantagem competitiva raramente discutida: o ecossistema que empresas familiares tradicionais e consolidadas já possuem e que, quando bem utilizado, acelera de forma significativa o desenvolvimento de novos negócios.

Uma startup precisa construir desde o início tudo aquilo que uma empresa familiar consolidada e tradicional já tem: uma base de clientes com histórico e confiança estabelecida, rede de fornecedores com parceria de longa data, colaboradores que conhecem a operação por dentro e um nome que carrega décadas de reputação e apresenta uma cultura organizacional sólida e, muitas vezes, humanizada. Esse conjunto – canal de distribuição vivo, credibilidade institucional e conhecimento profundo do cliente – representa a matéria-prima mais valiosa para qualquer novo negócio.

Empresas familiares o têm naturalmente – e muitas vezes não o exploram com essa intenção –, e a experiência prática que tivemos confirma essa tese. Nos últimos anos, liderei três novos negócios que foram estruturados e lançados dentro do nosso negócio em áreas distintas (finanças, distribuição e marca própria) e todos alcançaram faturamentos expressivos em tempo significativamente inferior ao que iniciativas independentes provavelmente levariam.

Em todos os casos, o que viabilizou velocidade e resultado foi a existência prévia de uma base de clientes confiante, uma estrutura operacional já em funcionamento e uma marca que abriu portas que demorariam anos para se abrir do zero. Juntamos esses aspectos com um bom planejamento, capacidade de execução e formação de times vencedores.

Um dos exemplos mais ilustrativos foi a criação de uma solução financeira voltada aos próprios clientes e fornecedores do grupo. A percepção inicial era simples: havia um fluxo de recebíveis gerado mensalmente que permanecia subutilizado, enquanto esses mesmos clientes enfrentavam dificuldades para acessar crédito competitivo no mercado tradicional. A partir dessa identificação, foi estruturada uma operação que passou a antecipar recebíveis e oferecer crédito com condições mais acessíveis. O resultado beneficiou todos os lados: o grupo melhorou seu fluxo de caixa, os clientes ganharam acesso a crédito melhor e mais rápido e uma nova vertical de receita foi criada, algo que simplesmente não existia antes.

O modelo que se repete se dá por um ciclo, que se inicia por identificar onde o ecossistema já existente pode sustentar algo novo, estruturar a iniciativa com rigor e escalar com o canal que a família levou décadas para construir. Não se trata de abandonar o negócio principal, mas de enxergar, dentro dele, os ativos que ainda não foram ativados. O maior obstáculo nesse processo raramente é financeiro ou tecnológico – é cultural.

A tendência natural em organizações com história é proteger o que funciona e tratar projetos novos como distração ou risco desnecessário. Superar isto exige clareza estratégica e capacidade de demonstrar, com resultados concretos, que novos negócios dentro do ecossistema familiar não são apostas, mas extensões naturais de ativos que já existem e que, se não forem ativados internamente, podem ser explorados por concorrentes ou por outras empresas que enxergarem a oportunidade primeiro. Um ponto importante é alinhar a execução para fazer o novo sem perder o foco no negócio principal, pois ele continua sendo o motor e o que vai sustentar estes novos negócios.

A questão central que cada família empresária poderia colocar em pauta não é apenas sobre como proteger o que foi construído, mas como é possível construir a partir do que já existe. A resposta, quando buscada com método e experiência, frequentemente revela oportunidades de geração de valor que já estavam ali esperando para ser estruturadas.

Sobre o autor:

Victor Gomides

Diretor da Lince Participações, foi responsável pela criação da área de novos negócios no Grupo Real, onde iniciaram 3 novas empresas (PERbank, Mide Parts e Real Duas Rodas). É também membro da terceira geração do grupo.

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